Sexta, 12 de Junho de 2026
26°

Parcialmente nublado

Tobias Barreto, SE

Brasil MORAL DA HISTÓRIA

REFLEXÕES ÉTICAS SOBRE A MENTIRA NA ERA DIGITAL

Dom João Santos Cardoso, Bispo de Natal

12/08/2024 às 07h27
Por: José Bráulio Oliveira Santos
Compartilhe:
REFLEXÕES ÉTICAS SOBRE A MENTIRA NA ERA DIGITAL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL - CNBB

A mentira é tão antiga quanto a própria comunicação humana, pois o ato de falar implica dizer a verdade ou mentir. Desde os primórdios da filosofia, a verdade e a mentira foram questões centrais no debate ético e moral. Clássicos como Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Immanuel Kant abordaram a questão de formas distintas, cada um trazendo contribuições valiosas para a compreensão do fenômeno. Hoje, em meio à revolução digital e ao fenômeno das fake news, essas reflexões ganham nova relevância, mostrando-se atuais e necessárias. 

Santo Agostinho, em suas obras “Contra a Mentira” e “Sobre a Mentira,” é rigoroso ao tratar do tema. Para ele, a mentira é sempre um pecado, pois implica uma falsidade deliberada que corrompe a alma. Agostinho distingue diferentes tipos de mentira, mas mantém que qualquer forma de falsidade é moralmente repreensível. Ele enfatiza a necessidade de aderir à verdade como uma obrigação moral absoluta, independente das consequências. 

Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica” (Secunda Secundae, Tratado sobre a Justiça, Questão 110), aborda a mentira como um pecado que vai contra a justiça e a caridade. Ele classifica as mentiras em três categorias principais: mentiras prejudiciais, mentiras oficiosas e mentiras jocosas (ou piadas). 1. Mentiras Prejudiciais: são ditas com a intenção de causar dano a outra pessoa, seja em sua reputação, bens ou vida. Santo Tomás destaca que essas mentiras são especialmente graves porque têm como objetivo prejudicar deliberadamente o próximo. Ele também inclui mentiras contra Deus, como aquelas que distorcem a verdade da fé, considerando-as ainda mais severas devido ao seu impacto espiritual. 2. Mentiras Oficiosas: são contadas para obter algum benefício ou evitar um dano, como mentir para proteger alguém ou para evitar uma situação desconfortável. Apesar de não serem contadas com a intenção de prejudicar, Santo Tomás ainda as considera moralmente erradas porque vão contra a obrigação de comunicar a verdade. No entanto, ele reconhece que a culpa dessas mentiras é menor do que a das mentiras prejudiciais. 3. Mentiras Jocosas: são ditas para divertir ou entreter, sem a intenção de enganar de forma maliciosa. Embora possam ser consideradas menos graves, pois geralmente não causam dano direto, Santo Tomás as considera moralmente inadequadas por desviar-se da verdade. 

Enfim, segundo Santo Tomás, a mentira, independentemente de sua intenção ou gravidade, é sempre moralmente errada porque contraria a natureza racional do ser humano, que é orientada para a verdade. Ele argumenta que as palavras são sinais naturais das ideias, e usar esses sinais para transmitir algo contrário ao que se pensa é uma desordem moral. Pois, só pode mentir quem conhece a verdade e, deliberadamente, mente para enganar ou tirar algum proveito dela. Portanto, mesmo as mentiras com boas intenções não escapam da condenação moral, pois comprometem a verdade, que é essencial para a comunicação humana e a confiança social. 

Immanuel Kant, em seu ensaio “Sobre um Pretenso Direito de Mentir por Amor à Humanidade,” é igualmente rigoroso. Para Kant, a veracidade é um dever incondicional, essencial para a base da justiça e dos contratos sociais. Ele argumenta que, mesmo uma mentira dita para evitar um mal maior, como mentir para proteger alguém de um assassino, não é justificada, pois compromete a universalidade do dever moral e a confiança nos contratos sociais. 

Com a revolução digital e o advento da internet, o conceito de verdade foi significativamente alterado. A disseminação de fake news exemplifica o que caracteriza a “pós-verdade,” onde as emoções e crenças pessoais se sobrepõem aos fatos objetivos. As fake news são frequentemente construídas a partir de fragmentos de verdade, manipulados para reforçar determinadas crenças e ideologias, criando narrativas que visam desinformar e desestabilizar o sistema de verdade compartilhado. 

Esse fenômeno apresenta um desafio ético significativo, pois a manipulação da verdade pode levar à desinformação massiva e à polarização social. A cultura digital, ao democratizar a produção e disseminação de informações, deu voz a todos, mas também abriu espaço para a desinformação. A educação para o pensamento crítico e a ética na comunicação são de suma importância para lidar com esses desafios. 

As reflexões clássicas de Agostinho, Tomás de Aquino e Kant continuam sendo fundamentais para a compreensão ética sobre a verdade e a mentira. Em tempos de fake news e pós-verdade, é fundamental revisitar esses ensinamentos e aplicá-los ao contexto contemporâneo, promovendo uma cultura baseada na verdade e na responsabilidade na comunicação. A busca pela verdade deve ser um compromisso contínuo, tanto na esfera privada quanto na pública, garantindo que a informação seja usada para o bem comum e para a construção de uma sociedade mais justa e informada. 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MORAL DA HISTÓRIA
MORAL DA HISTÓRIA
Sobre Assim como nos tempos gregos mais proeminentes, esse espaço dedica-se às discussões relevantes da política, cultura, educação, economia e, portanto, dos aspectos da vida de um brasileiro.
Tobias Barreto, SE Atualizado às 17h16 - Fonte: ClimaTempo
26°
Parcialmente nublado

Mín. 19° Máx. 32°

Sáb 33°C 18°C
Dom 33°C 20°C
Seg 32°C 21°C
Ter 32°C 20°C
Qua 31°C 21°C
Anúncio
Anúncio
Anúncio
Anúncio
Enquete
Anúncio
Anúncio
Ele1 - Criar site de notícias