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A borracha caída

A lição do perdão.

10/06/2023 às 17h12 Atualizada em 30/04/2024 às 21h47
Por: José Bráulio Oliveira Santos
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Foto: Internet/Dina Flores
Foto: Internet/Dina Flores

A maior lição que tive na vida ocorreu durante os áureos tempos de escola, quando ainda cursava a terceira série do ensino fundamental, algo que, hoje, equivaleria ao quarto ano. A sala da escola municipal Telma de Souza Almeida estava cheia. Éramos cerca de trinta alunos e compúnhamos a 3ª Série A daquela alegre instituição de ensino.

Lembro-me bem que a professora, Ana Paula, era muito atenciosa. Costumava rondar por toda a turma, baldeando de carteira em carteira para nos instruir, explicando os pormenores das lições. Ela nos policiava com seu olhar. Era exigente, mas muito simpática. Não sei como, mas achava tempo em sua agenda para visitar as famílias dos alunos. Antes do ano letivo terminar, a prudente e exemplar professora acabou deixando a regência da turma. Recebeu proposta para assumir a coordenação de outra escola. 

Foi ainda sob as égides da dedicada Ana Paula que um simples fato, corriqueiro do cotidiano de uma sala de aula, marco-me profundamente. Ao tentar responder rebuscadas questões de matemática, com lápis e borracha em mãos, fazíamos e desfazíamos contas e mais contas. Para nossa idade, eram dificílimas. Contudo, a professora estava sempre por perto, apta a sanar qualquer dúvida. Eu me esforçava muito para entregar a tarefa no prazo estipulado.

O detalhe é que minha borracha não se acoplava no lápis. Era uma famosa borracha do tipo "apaga-caneta", daquela de duas cores, azul e vermelha. Apaga-caneta era apenas um infortúnio título. Estava mais para destruidora de papéis. E eis que a bendita borracha cai da minha carteira, no chão.

Me contorcia, estirava a perna, deslizava na carteira mas não conseguia alcançar o material caído. Meu colega ao lado assistia a tudo, mas fingia que não. Cansado da exaustiva ginástica, desisti. Voltei-me ao colega fingido e pedi, com muita educação, que ele apanhasse a minha borracha que estava no chão, praticamente, ao lado dele. Ele sorriu de lado. Retribuí o gesto fazendo cara de pidão. Não adiantou pois ele era um sínico. Ouvi dele um estrondoso não. 

Em minha mente, disparei impropérios contra ele. A fama de quieto me impedia de verbalizar o que se passava em minha cabeça. Que ingrato! Ontem, o havia ajudado na tarefa de Língua Portuguesa e esse foi o pagamento que recebi! Bufando de raiva, levantei-me, dei a volta na fila e apanhei, de cócoras, a borracha apaga-caneta. Encarando-o, voltei ao meu lugarzinho com o profundo desejo de que ele logo precisasse de mim. Que raiva sentia! Era ele pedir alguma coisa e o mandaria para as cucuias. Como ingratidão dói! Enquanto caminhava lentamente rumo à carteira, meu coração palpitava de raiva em meu peito. Só deu tempo sentar: a borracha branca do ingrato caiu ao chão.

Depois de reproduzir cena de contorcionismo semelhante a minha, teve a audácia de me pedir para apanhar a borracha dele no chão. Eu já preparava os lábios para cuspir um absurdo quando, repentinamente, ouvi "NÃO". Era a professora Ana Paula. De blusa branca, com uma das mãos a massagear o caderno de outro colega de turma, desamassando a página abarrotada de contas, e na outra o dedo a apontar para o céu, tal como uma filósofa, ela disse que viu todo o episódio.

Fiquei sem jeito. Tentei justificar que não iria me submeter a pegar a borracha do ingrato. Ela, mais uma vez, interrompeu minhas explicações e disse ser preciso deixar sempre evidente às pessoas que não somos iguais e que as principais diferenças entres pessoas não são as condições financeiras, cor de pele ou porte físico, mas sim a diferença de carácter. Era necessário deixar claro por meio de nossas ações que não somos iguais pois reagimos diferente ante às inúmeras situações que a vida nos prepara.

Entendi o recado. Levantei-me, peguei a borracha branca e entreguei ao ingrato. Ela sorriu e voltou a tirar dúvidas do exercício de matemática. Aquilo foi tão bonito que, ao entregar a borracha branca ao ingrato, nem mais esperava que me agradecesse. E não agradeceu mesmo.

E foi assim que aprendi a lição: pagar o mal com o bem, a ingratidão com o serviço, a indiferença com a atenção. O maior perdão é aquele que segue sempre acompanhado de um grande exemplo. 

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